Ontem (22/12/2025), em Barcelona, participei de um encontro que reuniu mulheres com trajetórias diversas para refletir sobre feminismo decolonial, imigração e cidadania a partir de experiências concretas e de contextos históricos, culturais e políticos distintos. Compartilhei a mesa com Sonia García García, Julia Castilho e Ruth Gabriel, em uma conversa promovida pelos Comuns.
O debate deixou evidente que o feminismo decolonial não pode ocupar um lugar periférico. Ele é chave para compreender realidades complexas. Nesse contexto, Barcelona — uma cidade atravessada por fluxos migratórios — tem diante de si uma oportunidade e uma responsabilidade: escutar mulheres migrantes do mundo. Essa escuta não fortalece apenas o campo feminista, qualifica a própria ideia de cidadania em uma das cidades mais influentes da Europa contemporânea.
A pluralidade é central para pensar soluções inovadoras para a urbanidade, o crescimento econômico, a segurança e a sustentabilidade do território. Mulheres constroem soluções com visão sistêmica, inteligência coletiva e capacidade de articulação. Mulheres indígenas, por exemplo, trazem modelos de comunidade e de civilização que dialogam com temas urgentes como crise climática, abandono social, aumento da violência.
Quando vozes migrantes deixam de ser marginalizadas, passam a oferecer contribuições valiosas para políticas públicas, cultura, economia e inovação. O feminismo, nesse sentido, questiona o pensamento único — e essa é uma das palavras-chave da inovação. Feminismo inova. É capital humano, repertório estratégico e inteligência social. Precisa ocupar também o campo empresarial, assim como já ocupam temas como sustentabilidade, diversidade e inovação.
Da minha parte, compartilhei uma trajetória marcada por deslocamentos e contradições. Sou uma mulher branca, oriunda do sul do Brasil, região marcada por dois movimentos de colonização. O segundo deles, impulsionado por políticas que incentivaram a imigração européia — em um contexto de guerras, fome e pobreza na Europa. Esse processo esteve diretamente ligado ao projeto de branqueamento da população brasileira, que produziu consequências profundas nas dinâmicas sociais e simbólicas do país. Entre elas, a experiência de muitas pessoas brasileiras que, como eu, buscam compreender suas origens e ancestralidades em um território imenso, marcado por apagamentos, deslocamentos e despossessões.
Essa reflexão me leva a reconhecer que, embora engajada em pautas progressistas e no feminismo, muitas vezes reproduzi lógicas eurocêntricas, coloniais. Por isso, o encontro foi, para mim, sobretudo um espaço de escuta para perceber como essas estruturas operam de forma silenciosa.
O feminismo decolonial abre caminhos para a construção coletiva de soluções. Em um mundo marcado por deslocamentos intensos e desafios democráticos, sustentar esses espaços de diálogo é uma decisão estratégica sobre o futuro que desejamos.
Marta Dueñas é membra do Núcleo do PT Barcelona
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