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LUTE COMO UM VENEZUELANO - Por Ana Luiza Palermo Bomfim

 


Como muitos brasileiros, eu não sabia quase nada sobre Bolívar. Meu primeiro contato com o termo “bolivariano” veio pela versão deturpada e oportunamente preconceituosa da direita brasileira.

Morando na Espanha — país onde mora grande parte dos imigrantes da América colonizada pelos espanhóis — passei a conviver com muitos latinos hispano falantes. Esse contato abriu um mundo até então impensável para mim, assim como para boa parte da população brasileira. Parece que o Brasil sempre esteve, de certa forma, de costas para a Hispano América. Só recentemente começou a se integrar mais ao continente — e a recíproca, infelizmente, também é verdadeira. Quando os hispanos falantes mencionam seus países vizinhos, citam uma longa lista… e quase nunca incluem o Brasil.

A partir dessa perspectiva da minha experiência entre companheiros sul-americanos, tenho a impressão de que, para compreender a postura radicalmente soberana, independentista e anti-imperialista do povo venezuelano, de Chávez e de Maduro, é bem importante conhecer a história de Simón Bolívar, o grande libertador da América Latina, nascido justamente nesse país.

Mas afinal, quem foi esse tal de Simón Bolívar? Nascido em 1783, foi o importante arquiteto da independência latino-americana no século XIX. Um líder estrategista, político e militar que comandou a libertação de vastas regiões do nosso continente e se tornou uma referência central da luta contra o colonialismo espanhol. Influenciado por ideias iluministas e revolucionárias na Europa, Bolívar defendia com afinco a autodeterminação dos povos e rejeitava a submissão política e econômica às potências estrangeiras. 

Mais do que um herói nacional, e conhecido como “O Libertador da América”, formulou um projeto continental de integração latino-americana, baseado na soberania e na unidade política. A experiência da Grã-Colômbia (atuais Colômbia, Venezuela, Equador, Peru, Panamá e Bolívia, que leva o seu nome) revelou tanto a potência quanto as limitações desse ideal. Mesmo derrotado politicamente e abandonado pelas elites, Bolívar permanece como símbolo fundador da identidade política da América Latina espanhola, especialmente na Venezuela.

Bolívar foi um homem reconhecido mundialmente em sua época. Muito à frente do seu tempo, defendendo ideais republicanos e democráticos, antecipou ideias que só mais tarde seriam sistematizadas: defendeu o fim da escravidão, o trabalho assalariado, a redistribuição de terras, combateu a monarquia. Ao mesmo tempo, compreendia as fragilidades políticas do continente recém-liberto e, por isso, defendia um poder forte e estável: chegou a propor um cargo de presidente vitalício, não hereditário, mas com a sucessão baseada na continuidade de um projeto político soberano — inspiração que encontrou, entre outros exemplos, na Revolução Haitiana, o primeiro levante vitorioso de escravizados nas Américas. Esse regime seria capaz de resistir às potências estrangeiras e às elites internas.

Com grande poder de mobilização das massas, Bolívar comandou exércitos em campanhas decisivas como a travessia da Cordilheira dos Andes. Um terço da população venezuelana de 700 mil habitantes se sacrificou à época por esses ideais na vitoriosa Guerra da Independência, que encerrou o domínio colonial espanhol na Venezuela.  

A série Bolívar (Netflix) e o livro O General em seu Labirinto (Gabriel Garcia Marques) me iniciaram no tema, mas  penso que seria fundamental fazer parte do ensino básico obrigatório em toda América Latina, assim como a contribuição de tantos outros heróis da resistência em nosso continente.

Muitas das reflexões de Bolívar ajudam a compreender o enfrentamento ao imperialismo norte-americano conduzido pela Revolução Bolivariana. Segundo Bolívar:

“Os Estados Unidos parecem destinados pela Providência a encher a América de misérias em nome da liberdade.”

“Um povo ignorante é um instrumento cego de sua própria destruição.”

“A escravidão é filha das trevas”. 

“Quero viver livre e morrer cidadão.”


“Nossos inimigos terão todas as vantagens enquanto não unificarmos um governo da América.”

Bolívar também tinha consciência da hipocrisia europeia. Em uma de suas declarações, afirmou que, embora tivesse ordenado a execução de centenas de prisioneiros espanhóis durante a guerra “à morte” — em resposta aos métodos hispânicos de extermínio — os europeus não possuíam autoridade moral para julgá-lo, pois nenhuma história estava tão marcada por sangue, injustiças e indignidades quanto a da própria Europa. Para ele, a América não precisava copiar modelos estrangeiros:
“Não nos façam mais o favor de dizer o que devemos fazer. Não tentem nos ensinar como devemos ser. Não queiram que façamos bem em vinte anos o que vocês fizeram tão mal em mil.

Após a vitória do general Sucre na batalha do Alto Peru, ao perguntar-lhe qual deveria ser o passo seguinte, recebeu uma resposta que sintetiza seu pensamento político: “Pergunte ao povo.”

Neste momento de forte reedição das ameaças imperialistas como o ataque do dia 3 de janeiro de 2026 e o sequestro do presidente eleito pelo povo venezuelano Nicolás Maduro, trago essa contribuição ao debate, pois acho que temos muito o que aprender com esse icônico personagem da nossa história de resistência.

Par concluir, deixo aqui as palavras de ordem: “Alerta, alerta, alerta que caminha, a espada de Bolívar pela América Latina”.

Anna Ly - Membro da Assembleia Bolivariana da Catalunha

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