O que acontece em Barcelona é, sim, uma das mais relevantes tentativas recentes de recompor um campo progressista internacional, fragmentado por crises, guerras e pelo avanço persistente de uma ultradireita organizada.
Há dias em que a política deixa de ser estrutura e vira atmosfera. Barcelona, neste 18 de abril, respirava isso — uma espécie de liturgia contemporânea da esperança. No palco do Global Progressive Movement, sucediam-se discursos que buscavam reorganizar o mundo, como quem tenta alinhar constelações depois de uma longa noite.
Havia história ali. Ecoavam nomes como Salvador Allende — não em presença física, mas como memória insistente de que a democracia pode ser interrompida, mas não silenciada. Havia também a cadência experiente de José Luis Rodríguez Zapatero, com sua defesa contínua do diálogo, e o protagonismo institucional de Pedro Sánchez, hoje uma das vozes mais articuladas da social-democracia europeia.
E, no entanto, algo não cabia completamente naquele desenho.
O auditório era amplo, as ideias também. Mas o mundo que se anunciava ali — mais justo, mais igual, mais plural — ainda era narrado, em grande parte, por homens, brancos, do Norte global.
Discursos em inglês, bem construídos, sofisticados, falando de justiça social como quem descreve uma paisagem que nem sempre atravessaram com o corpo.
Não se trata de negar a importância do encontro. Seria pequeno — e injusto.
O que acontece em Barcelona é, sim, uma das mais relevantes tentativas recentes de recompor um campo progressista internacional, fragmentado por crises, guerras e pelo avanço persistente de uma ultradireita organizada.
Mas há uma diferença entre estar convidada e estar representada.
Como mulher brasileira, eu me reconheci — em parte. E esse “em parte” diz mais do que parece.
Me vi na presença firme de Luiz Inácio Lula da Silva, que voltou ao palco internacional com a autoridade de quem conhece a desigualdade não como conceito, mas como experiência histórica.
Reconheci-me também nas vozes que vieram de territórios tensionados — Barbados, Palestina — lembrando que o mapa-múndi não é neutro: ele tem hierarquias, cicatrizes e silêncios.
Mas senti falta.
Senti falta de escutar, com mais centralidade, lideranças como Claudia Sheinbaum e Gustavo Petro — vozes fundamentais para compreender o presente latino-americano em sua radicalidade e complexidade. Senti falta de mais mulheres, mais corpos dissidentes, mais sotaques que não precisem se traduzir para existir.
A Europa fala hoje de crise habitacional. E fala com razão. Barcelona vive tensões profundas entre turismo, especulação imobiliária e direito à cidade.
Mas a crise da moradia no Brasil — e em boa parte do Sul Global — não é apenas uma questão de mercado.
É uma questão de existência. Não se trata só de acesso, mas de permanência, de dignidade, de sobrevivência cotidiana em territórios marcados por ausência histórica do Estado e violência estrutural.
Da mesma forma, quando se fala de violência contra mulheres, falamos de escalas distintas de brutalidade. No Brasil, essa violência é atravessada por raça, classe e território — e muitas vezes se manifesta de forma letal. Não é metáfora. É dado. É luto.
E há ainda uma violência mais silenciosa, mas não menos profunda: a dos saberes. Aquela que define quem produz conhecimento legítimo e quem apenas ilustra o debate. Aquela que convida o Sul Global a falar — mas raramente a formular.
Talvez por isso seja importante lembrar de onde viemos.
Porto Alegre, em 1989, inaugurou uma experiência que mudaria a forma de pensar democracia no mundo: o orçamento participativo. Décadas depois, cidades europeias — como Barcelona — passaram a adotar mecanismos semelhantes, inspiradas nessa prática.
E foi também em Porto Alegre que nasceu o Fórum Social Mundial, como contraponto ao World Economic Forum — um espaço onde, historicamente, não éramos convidados. Ali, se cantou, com força global, que um outro mundo era possível.
Não era slogan. Era método.
É nesse ponto que a crítica precisa ser feita com algum rigor — e sem afetação.
Porque não se trata de desmobilizar. Ao contrário: trata-se de aprofundar.
O Sul Global não é apêndice desse movimento. É parte constitutiva. Foi — e continua sendo — laboratório de políticas públicas, de resistência democrática, de reinvenção social.
Por isso, ao olhar para Pedro Sánchez, vê-se uma liderança importante, necessária, capaz de sustentar posições progressistas num continente sob pressão conservadora. A Europa precisa dessa voz — e a escuta.
Mas talvez o próximo passo seja outro: escutar mais antes de responder. Abrir espaço real para que o Sul Global não apenas participe, mas conduza partes dessa conversa.
Barcelona foi, nestes dias, uma celebração. E há beleza nisso.Mas também foi um espelho.
E espelhos, quando bem posicionados, não servem apenas para confirmar — servem para revelar.
O que se viu ali foi um campo progressista vivo, potente, em movimento. Mas ainda atravessado por assimetrias que precisam ser nomeadas — não para enfraquecê-lo, mas para torná-lo mais verdadeiro.
Porque a justiça social que se proclama em inglês, em auditórios elegantes, só se completa quando também é dita em outras línguas — e reconhece outros corpos como centro, não como margem.
No fim, talvez seja isso: não basta imaginar um outro mundo possível. É preciso decidir, com alguma honestidade, quem tem o direito de narrá-lo.
Originalmente publicado em: https://082noticias.com/2026/04/18/um-outro-mundo-e-possivel-a-partir-da-europa/



Comentários
Postar um comentário
Comentários com ofensas a qualquer pessoa serao excluídos e denunciados